Neste volume da Carta da ECCON, preparado em conjunto por ECCON Soluções Ambientais e IWÁ Asset Management, abordaremos os desafios e oportunidades para o financiamento de soluções ambientais no Brasil, com foco nos principais setores da economia.

Contexto

O Brasil possui aproximadamente 20% da biodiversidade global e 12% da água doce superficial do planeta. Ao mesmo tempo, tem uma das maiores áreas agriculturáveis do mundo.

Essa dualidade coloca o país em uma posição singular e estratégica: a capacidade de expandir sua produção agropecuária, melhorar sua infraestrutura e desenvolver novos mercados, ao mesmo tempo em que deve administrar e conservar seus ativos ambientais.

O mercado global de finanças sustentáveis movimentou mais de US$ 1 trilhão em emissões de títulos verdes. No Brasil, o volume de capital destinado a iniciativas ligadas à agenda climática mais que dobrou desde 2019, alcançando cerca de US$ 67,8 bilhões em 2023 (Climate Policy Initiative), direcionados principalmente para agricultura de baixo carbono, conservação e energias renováveis.

Mesmo com esse movimento, ainda há uma percepção no mercado de que soluções ambientais apresentam complexidade regulatória, riscos territoriais e dificuldade de padronização de métricas, o que limita a escalabilidade do financiamento.

Nesse sentido, propomos uma mudança de perspectiva:os ativos ambientais não devem ser compreendidos apenas sob a ótica da complexidade regulatória ou de requisitos de conformidade. Mais do que um mero fator de custo ou adequação, as soluções ambientais já se tornaram um elemento central de resiliência das cadeias de suprimento e dos modelos de negócio.

Em um cenário de crescente exigência por rastreabilidade, descarbonização e integridade socioambiental, tanto por parte de mercados consumidores quanto de investidores, a gestão adequada de ativos ambientais passa a funcionar como um instrumento de governança e gestão de risco ao longo de toda a cadeia de valor.

Empresas e setores que incorporam esses ativos em suas estratégias produtivas não apenas mitigam riscos regulatórios e reputacionais, mas também fortalecem a estabilidade de suas cadeias de fornecimento, asseguram acesso a mercados internacionais e criam condições para modelos de negócios mais robustos e competitivos no longo prazo.

Abaixo, detalhamos possíveis caminhos em que essa lógica de valor das soluções ambientais se aplica aos pilares centrais do capital natural brasileiro.

Agronegócio e território

O agronegócio brasileiro consolidou-se como um dos principais pilares da economia nacional. Em 2025, o PIB do Brasil cresceu 2,3%, enquanto a agropecuária registrou crescimento de 11,7%, movimentando mais de 3 trilhões de reais. Esse crescimento faz pressão sobre os ativos ambientais.

A expansão do agronegócio tem maiores registros no Cerrado e na Amazônia, biomas onde, não por coincidência, ocorrem as maiores taxas de desmatamento.

Paralelamente, a regulação internacional vem trazendo cada vez mais exigências para o setor, a exemplo de normas relacionadas à rastreabilidade, regularidade fundiária e conformidade ambiental. Na seara do financiamento, a situação não muda. Modelos de crédito rural como Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA) e Fundo de Investimento nas Cadeiras Produtivas do Agronegócio (FIAGRO) trazem exigências quanto à origem da produção.

A gestão do território deixa de ser apenas um requisito regulatório passa a entrar na avaliação de risco financeiro. No Brasil, a discussão sobre ativos ambientais é indissociável da dinâmica de mudança de uso da terra, especialmente da conversão histórica de áreas de floresta e Cerrado para atividades agropecuárias. Grande parte dos desafios, e também das oportunidades, associados aos ativos ambientais emerge justamente desse processo de transformação do território.

Nesse contexto, rastreabilidade da produção, regularidade fundiária e conformidade ambiental tornam-se elementos centrais para destravar valor (“unlock value”) nos ativos rurais brasileiros. Ao assegurar transparência sobre a origem da produção, a situação jurídica da terra e o cumprimento da legislação ambiental, esses três pilares reduzem riscos sistêmicos na cadeia de valor, ampliam o acesso a mercados e capital e permitem que ativos produtivos e naturais sejam reconhecidos e valorizados dentro de modelos de financiamento e governança cada vez mais exigentes.

Conservação e restauração

No universo da conservação e restauração, o mercado está menos maduro, mas com potencial de crescimento. Historicamente, áreas conservadas ou em processo de restauração foram tratadas como um passivo, com restrições ao uso produtivo da terra. Porém, nos últimos anos observa-se um esforço para transformar esses territórios em ativos capazes de gerar valor econômico.

O mercado voluntário de carbono tem sido o principal vetor de financiamento privado para projetos de conservação e restauração, mesmo com os recentes escândalos de fraudes identificados em determinados projetos.

Essa crise de confiança pode ser uma oportunidade para o Brasil, caso o país consiga avançar com a apresentação de boas metodologias, bons projetos, sistemas eficientes de registro e monitoramento, rastreabilidade por sensoriamento remoto, dentre outras frentes necessárias para um mercado robusto.

Bons exemplos são os projetos PSA Carbonflor e PSA Carbon Agro Perene, desenvolvidos pela ECCON e seus parceiros (Citrosuco e Reservas Votorantim), com apoio da Embrapa, B3 e ACX.

Oportunidades

O Brasil pode demonstrar que o crescimento não impede a conservação e que os ativos ambientais sustentam a produtividade agrícola, a biodiversidade e o ciclo de chuvas, trazendo a base de uma economia mais resiliente e competitiva.

Informações geoespaciais, monitoramento ambiental contínuo e integração de bases públicas ampliam a capacidade de compreender riscos e oportunidades associadas a imóveis rurais produtivos ou iniciativas de restauração. Esse movimento identifica eventuais riscos territoriais em carteiras de ativos, oportunidades de restauração ou conservação em projetos produtivos, e elegibilidade para instrumentos financeiros ligados à agenda climática.

Parceria ECCON + IWÁ

A ECCON possui trajetória consolidada no desenvolvimento técnico de soluções ambientais, incluindo projetos de pagamento por serviços ambientais, modelagem territorial, monitoramento ambiental e desenho de mecanismos inovadores de conservação.

A IWÁ Asset Management, por sua vez, surge com o objetivo de estruturar veículos financeiros capazes de transformar ativos ambientais em classes de investimento escaláveis, conectando projetos no território a capital institucional. A gestora atua na estruturação de estratégias voltadas a ativos ambientais e soluções climáticas, incluindo financiamento de restauração e regeneração agrícola, ativos ligados à descarbonização do setor de transportes, recuperação de áreas degradadas e instrumentos associados à conformidade ambiental no Brasil.

Essa complementaridade cria oportunidades relevantes de colaboração, especialmente em três frentes:

1. Estruturação financeira de projetos ambientais: projetos desenvolvidos pela ECCON — como iniciativas de restauração, conservação, PSA ou soluções baseadas na natureza — podem ser estruturados pela IWÁ em veículos financeiros capazes de atrair capital institucional, incluindo:

Nesse contexto, a IWÁ busca estruturar portfólios de projetos que combinem retorno financeiro, geração de ativos ambientais e impacto climático mensurável.

2. Transformação de ativos ambientais em instrumentos financeiros: A parceria pode contribuir para transformar ativos ambientais em produtos estruturados e fluxos financeiros previsíveis, tais como:

Nesse último caso, destaca-se o financiamento e a certificação de projetos de biocombustíveis, como etanol e biometano, por meio da geração de créditos de descarbonização no âmbito de programas como o RenovaBio (CBIO) e novos instrumentos associados à transição energética, como o CGOB. Esses mecanismos criam fluxos financeiros associados à redução de emissões e podem funcionar como elementos estruturantes para o financiamento de projetos de energia renovável no Brasil.

3. Originação e análise territorial de investimentos: A experiência da ECCON em análise territorial, modelagem ambiental e monitoramento geoespacial pode fortalecer a capacidade de originação e diligência de investimentos da IWÁ, contribuindo para aspectos como:

A integração entre o rigor técnico-científico e a sofisticação do mercado de capitais é fundamental para destravar o verdadeiro potencial brasileiro na vanguarda das soluções ambientais. Essa junção de expertises permite converter a riqueza natural em ativos financeiros de alta integridade e atratividade econômica, posicionando o Brasil como um celeiro de soluções escaláveis que garantam um desenvolvimento resiliente, sustentável e com efetiva geração de valor.

Para mais informações, acesse nosso site ou entre em contato: contato@ecconsa.com.br.

Heloisa Baldin
Fernando Montanari
Yuri Rugai Marinho

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