Neste volume da Carta da ECCON, abordaremos a expansão dos data centers no Brasil, sua distribuição territorial, avanços tecnológicos e desdobramentos ambientais.

Data centers: infraestrutura digital e lógica territorial

Quando dizemos que determinados arquivos, processos ou informações estão na “nuvem”, é difícil imaginar que existe uma grande infraestrutura física operando por trás. A isso damos o nome de data centers, que operam continuamente para processar, armazenar e viabilizar o fluxo de dados que sustenta a economia digital.

Transferências financeiras, plataformas de streaming, sistemas corporativos e aplicações de inteligência artificial dependem diretamente dessa estrutura. À medida que essas tecnologias avançam, os data centers deixam de ter um papel apenas operacional e passam a se consolidar como ativos estratégicos, com implicações diretas sobre energia, conectividade, planejamento territorial e regulação.

Esses empreendimentos reúnem servidores de alta performance, sistemas de armazenamento, redes de alta capacidade e uma base energética robusta, além de soluções de refrigeração e segurança que garantem sua operação contínua.

Com a expansão da inteligência artificial, aumenta também a densidade computacional, o que eleva as demandas por energia e resfriamento e, consequentemente, influencia as decisões locacionais e a forma como esses empreendimentos se distribuem no território.

Distribuição territorial e conectividade estratégica

Embora, em tese, um data center possa ser implantado em diferentes localidades — uma vez que não depende de um recurso natural específico e lida com dados que podem ser transportados —, sua viabilidade econômica e operacional está condicionada a fatores bem definidos, como energia, conectividade e proximidade dos usuários.

A localização, portanto, não é neutra: responde à disponibilidade de energia, à presença de redes de fibra óptica, à proximidade dos grandes mercados consumidores e à necessidade de reduzir o tempo de resposta em serviços que exigem rapidez.

A conectividade por fibra óptica é um fator relevante na escolha da localização. Isso porque toda a operação depende da transmissão contínua de grandes volumes de dados, o que exige redes rápidas, estáveis e de alta capacidade. Além disso, a existência de múltiplas rotas de conexão permite redirecionar o tráfego em caso de falhas, evitando interrupções nos serviços.

Da mesma forma, a proximidade com grandes centros consumidores também é importante. Quanto menor a distância entre o data center e o usuário, menor o tempo de resposta, o que impacta diretamente a qualidade da experiência e, em alguns casos, a própria viabilidade de determinados serviços.

No Brasil, a distribuição dos data centers segue essa lógica. O setor se concentra em polos com maior conectividade, infraestrutura digital consolidada e demanda robusta, com destaque para São Paulo, Rio de Janeiro e Ceará.

São Paulo permanece como o principal eixo de infraestrutura e expansão, impulsionado pelo peso do mercado corporativo, pela conectividade madura e pela forte integração com provedores globais de nuvem. Trata-se do maior centro consumidor de dados do país, o que favorece a instalação de data centers próximos aos usuários e às empresas.

O Rio de Janeiro também se destaca como um polo relevante, beneficiado por boa conectividade e pela presença de infraestrutura digital consolidada, embora em menor escala em relação a São Paulo.

O Ceará, por sua vez, ganha relevância pela conectividade internacional. A presença de cabos submarinos que conectam o Brasil a outros continentes faz de Fortaleza um dos principais pontos de entrada e saída de dados do país, o que atrai investimentos em infraestrutura digital, especialmente para aplicações que dependem de integração com redes globais.

Como funciona um data center na prática

A implantação e a operação de data centers envolvem diferentes modelos de negócio e agentes. De forma geral, empresas especializadas desenvolvem, constroem e operam essas infraestruturas, enquanto o uso da capacidade instalada é compartilhado por diversos clientes.

Um dos modelos mais comuns é o de colocation, no qual empresas alugam espaço dentro do data center para instalar seus próprios servidores. Nesse caso, o operador fornece toda a infraestrutura — energia, refrigeração, conectividade e segurança —, enquanto o cliente mantém o controle sobre seus equipamentos.

Outro modelo relevante é o de computação em nuvem (cloud), em que grandes provedores, utilizam data centers para oferecer serviços digitais em larga escala. Nessa configuração, o usuário final não acessa diretamente a infraestrutura física, mas os serviços disponibilizados por essas plataformas.

Há ainda casos em que empresas desenvolvem data centers próprios, voltados exclusivamente às suas operações. Embora menos frequente, esse modelo ainda é adotado por organizações com elevada demanda por processamento ou requisitos específicos de segurança.

Independentemente do modelo, a fase de implantação — que envolve a escolha da localização, a obtenção de licenças e a estruturação da infraestrutura energética e de conectividade — permanece concentrada nos operadores e desenvolvedores, que atuam como os principais agentes na expansão do setor.

Política pública e atração de investimentos

O avanço da economia digital no Brasil tem impulsionado a formulação de políticas públicas voltadas à atração de investimentos e ao fortalecimento da infraestrutura tecnológica. Nesse contexto, destaca-se o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata), concebido para incentivar a implantação, operação e modernização dessas estruturas no país.

O regime prevê incentivos fiscais relevantes, associados a contrapartidas em pesquisa, desenvolvimento e inovação, além de exigências relacionadas à sustentabilidade e à destinação de parte da capacidade ao mercado interno. A iniciativa busca não apenas ampliar a infraestrutura digital, mas também fortalecer a cadeia produtiva e reduzir a dependência de serviços prestados no exterior.

Há, contudo, um ponto relevante: a MP nº 1.318/2025, que instituiu o Redata, perdeu vigência em fevereiro de 2026, e a continuidade dos incentivos passou a depender de proposta legislativa em tramitação. Assim, o que se observa é um ambiente regulatório ainda em consolidação, apesar da diretriz clara de atração de investimentos.

Aspectos ambientais e estruturação de projetos

A implantação de data centers traz desafios ambientais que vão além do licenciamento. Tratam-se de empreendimentos intensivos em energia, com demandas relevantes por infraestrutura e, em alguns casos, por recursos como água — especialmente em função dos sistemas de refrigeração —, o que torna a avaliação ambiental um elemento central desde as fases iniciais do projeto. Ainda assim, o avanço de tecnologias mais eficientes, como sistemas de refrigeração a ar e soluções híbridas, tem contribuído para reduzir essa dependência.

Os impactos associados variam conforme as escolhas de localização e de tecnologia adotadas, incluindo aspectos como consumo energético, emissões, uso do solo, geração de resíduos e necessidade de infraestrutura de apoio. Nesse contexto, a gestão ambiental passa a envolver não apenas a obtenção de licenças, mas também a estruturação de estratégias que permitam reduzir impactos e aumentar a eficiência dos empreendimentos.

Além do licenciamento ambiental, ganham relevância atividades como inventários de emissões, avaliação de riscos, definição de medidas de controle e acompanhamento de condicionantes, especialmente em um cenário de crescente pressão por eficiência energética e redução de impactos associados à operação.

Nesse sentido, a abordagem ambiental deixa de ser apenas uma etapa do projeto e passa a integrar a própria lógica de implantação dos data centers, contribuindo para maior previsibilidade, redução de riscos e alinhamento com as exigências regulatórias e de mercado.

Considerações finais

Os data centers já se consolidaram como infraestrutura crítica da economia digital, e sua expansão tende a se intensificar com o avanço da inteligência artificial, da computação em nuvem e da conectividade. Esse movimento, no entanto, não ocorre de forma dissociada do território: depende de energia, infraestrutura e regulação.

No Brasil, o desafio está em equilibrar crescimento e eficiência, combinando atração de investimentos, diversificação territorial e gestão ambiental. É nesse ponto de convergência que os data centers devem ganhar protagonismo crescente nos próximos anos.

Na ECCON, oferecemos assessoria técnica especializada para a estruturação ambiental de projetos de data centers, incluindo licenciamento, gestão de emissões e avaliação de riscos.

Para mais informações, acesse nosso site ou entre em contato: contato@ecconsa.com.br.

Maria Cecilia F. Ferronato
Yuri Rugai Marinho

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